sábado, 10 de junho de 2006

No Mínimo

Voltei a ler "O Amor nos Tempos do Cólera", de G. G. Marques.

É extremamente instrutivo, delicioso e revelador lê-lo num momento em que venho escrevendo tanto. Primeiro porque desperta "medo" e cuidado... como um referencial, é uma fonte de inspiraçào textual incrível. Depois, porque, ao escrever, se percebe que é preciso ter, NO MÍNIMO, muita humildade.


sábado, 11 de fevereiro de 2006

Para Layla

Olha,

Como que fazendo do olhar

Um pincel

De pelos finos e sensíveis,

Anatomia precisa,

Instrumento afinado,

Extensão dos teus próprios dedos,

Tensos ou libertos ao desejo de ver.

O exercício do olhar dá

Ao banal o valor do símbolo.

Transforma o mendigo em

Doce vagabundo.

Dá cartola ao vilão

Mais ordinário.

Vê sabedoria nos animais

E bichos decrépitos

Nos nossos belos intelectualóides.

Somos cúmplices, minha doce amiga,

Na forma que damos aos

Traços alfabéticos da nossa escrita.

Teus olhos tão cintilantes,

Imantados,

Põem a teus pés a admiração do mundo.

Use-os.

No nosso amor pelas letras

Meu texto flui solto,

Corre feito o potro em dia de sol,

Mas também se cansa e sabe quando

E como é hora de parar

Para que a energia volte.

O teu, agarrado aos impulsos

E sentimentos mais viscerais,

Todos moldados no teu sublime jeito,

Nascem dos pequenos gestos desejados

Que teu olhar busca ver

Nos que por ti passam

Nos que em ti ficam.

No tudo que te cerca.

Sobre o que escrevemos

Temos um mundo e alguns anexos

A dizer, a contar do que percebemos.

E se te deixo essas palavras,

Olhos cintilantes,

Não são por conselhos,

É minha forma de dizer

Do carinho gratuito por ti,

E de dizer-te que as palavras

Estão por aí, soltas

Correndo ao sol

Sem tempo

Só é preciso agarrá-las...

Estenda as mãos.

Veja onde elas estão.

Olhe.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Coisas recentemente antigas

Andei lendo coisas recentemente antigas.
Nelas encontrei coisas de que me orgulho, outras nem tanto...
Resgatei hoje um momento, desses que a gente chama de felizes por nada.

Escrevi isso para alguém e foi importante por tudo.

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Numa dessas tardes
Ainda laço um passarinho.
Não por maldade
Nem pra cercear-lhe
A vontade,
Liberdade primeira
De ir e vir.

Nem pensar,
Colocá-lo ali
A me servir.

Para pedir-lhe
Uma carona.
A corda, então
Serve apenas
De pendão,
Um balanço talvez,
Onde me penduraria
E ao céu
Alcançaria em
Tão suave companhia.

Claro, argumentaria.
Não se obriga ninguém
A agüentar tamanha
Tralha em plena luz do dia.

Não pensemos nas proporções
Estamos na escrita
Onde imperam outras liberdades
E dela não se tiram
Certos tipos de lições.

Mas se peso importa
Garanto que sou leve,
Ou que, pelo menos,
Não haja
Ninguém tão leve
Quanto possa avalizar
Meu coração,
De carimbo
E tudo seguro à mão.

E se esse favor
Tal passarinho
Me fizer,
Por amor qualquer,
É possível
Que estando eu
Tão perto do
Meu destino
Que possa eu mesmo,
E forma voluntária,
Levá-lo
Pelo ar.

Desatino?
Nada.
Desarmo em todos
Qualquer lógica contrária
Basta que
Me vejam sorrindo.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

Oba, oba Charles!

Como é que que é my friend Charles? / Como vão as coisas Charles?


O ALBATROZ


Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao próncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.


Charles Baudelaire


terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Tchau... e tenha um Bom Dia noite!

Incrível como ficar sem dormir é, às vezes, uma opção pela falta de sono e insônia simultaneamente. Explico: não há sono e o fervilhar da criatividade na madrugada fica solto, desperto entre os sons da noite... Tb não há insônia, pq a opção do sono é consciente, e se dormir for a bola da vez, é fechar os olhos e entregar-se a um prazer onírico qualquer.

Pq tudo isso agora? Pq o sol nasceu pela janela atrás de mim e nem percebi...

terça-feira, 27 de dezembro de 2005

O inacreditável

Segundo Jorge Luis Borges, em O Aleph, para que o inacreditável possa ocupar lugar no real, é preciso que haja apenas um elemento sobrenatural a ser narrado em meio a tudo. Ele se entremearia no cotidiano, nas doses opulentas da vida comum, das nossas pré-noções, no senso comum e, ali, alojada na mais improvável existência, se faria visível ou sensível aos sentidos da história e aos olhos incrédulos dos personagens e leitores.

Mais logo, em Livro de Areia, uma ressalva: "(...) que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador."


São coisinhas que eu vou acumulando no canto dos cadernos, nos papéis no bolso... por que ainda termino meu livro um dia desses.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

O Guardador de Rebanhos

 (Fernando Pessoa)


VIII 

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.


Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!



Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.






Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.


Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.


E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.


A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.


Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.


Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.


Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.


Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.


Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.


Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?