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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Central do Brasil visto de perto

Por Marcelo Lopes

O filme “O Tropeiro”(1961), o vínculo natal do cineasta Glauber Rocha (1939-1981) e a passagem da equipe de filmagens de “Central do Brasil”(1998) são exemplos, em tempos e perspectivas diferentes, de registros fundamentais da relação estreita que Vitória da Conquista alinhavou com a sétima arte. Futucando minhas coisas em casa, resgatei um material importante desta história. Registros que acompanhei passo-a-passo, de perto, e que, num tributo merecido, deixo aqui postado como parte da memória recente da cidade e daqueles, que como eu, respiram cinema.

Walter Salles
Em 1996, o então recém-eleito prefeito de Vitória da Conquista, Guilherme Menezes, havia sido contatado pela equipe de um longa-metragem que circulava o país para conseguir apoio logístico para suas filmagens. Tendo como referência o trabalho já reconhecido da ProVídeo/Programa Janela Indiscreta Uesb na área da formação de público para o cinema, o gestor triangulou os contatos para a viabilização desta possibilidade. O filme apontava nomes conhecidos no elenco e era encabeçado por um então jovem cineasta vindo do campo da publicidade e do documentário: Walter Salles (o Jr. sairia da assinatura pouco tempo depois).

Terra Estrangeira no Madrigal: ao centro o ator Matheus Nachtergaele
Em um curto período chegaram o roteiro, números de telefone e toda uma rede de articulações se mobilizou. Num lapso de segundo, parecia que tudo estava pronto, por maior que fosse a trabalheira real em torno disto. Com a parceira de instituições públicas e privadas locais, a equipe se acampou com dezenas de pessoas, equipamentos e toda sua parafernália cinematográfica no bairro Vila Serrana II para sete dias de filmagens. Na contrapartida do apoio, a equipe levou para dentro do filme atores e técnicos locais, deu acesso a parceiros e participou de eventos relacionados ao cinema, como a exibição do filme Terra Estrangeira, do diretor Walter Sales, que o comentou a um assombroso público de mais de mil espectadores no Cine Madrigal.

Cena de Central do Brasil na Vila Serrana, em Conquista
Foram dias interessantes. O então não tão famoso ator Matheus Nachtergaele, descia do apartamento do hotel Livramento e passava os finais da tarde sentado à mesa de um barzinho de esquina na Praça do Gil, sem que ninguém o notasse. Um bate papo agendado num sábado à tarde com os diretores Walter Salles e Walter Carvalho  (responsável pela fotografia do filme) se tornou uma deliciosa aula de mais de quatro horas sobre cinema numa salinha na Uesb para um grupo de não mais que doze pessoas (e eu no meio!!). E talvez a mais instigante aprendizagem era poder respirar o ar daqueles dias nos espaços dos sets de filmagens. Entendam: cinema no Brasil neste período era meio que um bicho-de-sete-cabeças (um trocadilho proposital). Primeiro, porque fazê-los não era algo assim tão fácil depois que Fernando Collor praticamente havia esfacelado os mecanismos que estruturavam o cinema no Brasil; segundo, o contato direto com este universo quase mitológico do cinema não era tão acessível, e em meio a tudo isso, não se tratava apenas de presenciar qualquer filme: era um longa-metragem, com profissionais com um know-how acima da média, com atores de ponta e um investimento considerável. Isto pode parecer óbvio hoje em se tratando de Central do Brasil, mas à época, ainda não havia todo o frisson em torno do que ele viria a se tornar, como um marco na cinematografia brasileira, uma narrativa sensível, uma produção respeitada, que levaria o Leão de Ouro em Cannes e indicações ao Oscar. Naqueles dias de 1997, a festa ainda era só dos conquistenses.

Jorge Melquisedeque entrevista Fernanda Montenegro
Por atuar na logística local, tínhamos acesso irrestrito às filmagens: assistíamos às gravações no final da tarde (que no filme aparecem como o amanhecer quando a personagem Dora vai embora), víamos os ensaios meticulosos de Matheus, buscando se alimentar do sotaque e do palavreado local; Vinícius de Oliveira e Caio Junqueira jogando bola nos intervalos. Podíamos assistir in loco a atuação de “Dona” Fernanda, como todos respeitosamente a chamavam, e neste momento era perceptível como certas pessoas têm, de fato, uma aura visível de dignidade, para além de qualquer notoriedade. Conversávamos com membros da equipe que despontariam tempos depois no cinema brasileiro, a exemplo de Kátia Lund, co-diretora de Cidade de Deus. Há cenas, costumo dizer, que se a câmera pudesse magicamente sair do enquadramento e se deslocar para o lado por um momento, estaríamos nós ali sentados, vendo e vivendo tudo aquilo.

Fotos: Arnaldo Ribeiro
São muitas as histórias desta experiência e aqui relato apenas algumas das diversas impressões pessoais que tive. A ProVídeo registrou momentos muito particulares destes acontecimentos: bastidores, depoimentos da equipe, dos atores e do diretor Walter Sales, guardando recortes únicos de um dos filmes mais emblemáticos do que veio a ser conhecido como Cinema da Retomada. O projeto do documentário, cuidadosamente pensado pelo produtor cultural Jorge Melquisedeque, acabou não sendo produzido por ele - que faleceria em 2001. Este rico material bruto, que já amargava bons anos nas prateleiras, foram resgatados em 2002 e editados com o roteiro que escrevi (baseado nas crônicas de Jorge sobre o período) e direção de Esmon Primo para a programação de homenagem aos 10 anos do Programa Janela Indiscreta Cine Vídeo Uesb.

Foto: Edna Nolasco
O curta intitulado "Central Conquista Brasil: os 7 dias da criação" é quase inédito por razões adversas. Infelizmente, o original (master) do vídeo-documentário se danificou na Uesb durante sua finalização. Apenas uma cópia em VHS foi resgatada e segue aqui publicada. Todas as fitas em Super-VHS do material bruto, no entanto, ainda fazem parte do acervo e devem - sem data definida - usadas na reedição do material. Pelo válido registro desta história espero que gostem, conheçam e rememorem.




quarta-feira, 22 de maio de 2013

Palestra de Ariano Suassuna em Conquista

Por Marcelo Lopes

Dramaturgo. Poeta. Romancista. Nascido em 1927, na Paraíba, construiu muito da sua história literária em Recife, Pernambuco. Ariano Suassuna é dessas figuras emblemáticas da cultura brasileira, aguerrido defensor do nosso patrimônio material e imaterial, de onde bebe incansavelmente nos elementos mais fundamentais para compor sua obra.
Dono de um senso de humor muito inteligente, doce e ácido ao mesmo tempo, comove pela entrega à paixão com que defende e exalta os valores brasileiros.
O autor de “Auto da Compadecida” e “A Pedra do Reino”, abriu a segunda edição do Festival da Juventude, em Vitória da Conquista, no último dia 10 de Maio de 2013.
Para os que não puderam assistir, aí vai mais uma das chamadas aulas-espetáculos do mestre da literatura. Sempre um tributo àquilo que chamamos Brasil.



Registro da palestra de abertura da segunda edição do Festival da Juventude com o dramaturgo e poeta Ariano Suassuna, em Vitória da Conquista (BA), dia 10 de Maio de 2013. Produção e edição Secom/Pmvc.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Política de Juventude, Cultura e Festival

Por Marcelo Lopes / Release do evento

A Política Nacional de Juventude tomou para si a polarização de uma série de medidas que visaram reconhecer o jovem como uma categoria social com necessidades específicas em relação às políticas públicas. Implantada no Brasil a partir de 2004, hoje alcança todos os níveis da federação.

Pensar políticas, programas e ações que mobilizem a juventude em diversas instâncias, tendo com centro de gravidade a compreensão do seu papel fundamental para um crescimento efetivo do cidadão com uma cada vez melhor e mais abrangente qualidade de vida tem sido o objetivo de muitas gestões no país.

Em Vitória da Conquista, desde 2012, a maior culminância das atividades institucionais voltadas para essa faixa etária no município tem sido o Festival da Juventude. Em seu segundo ano, o evento traz o tema “Fazer parte em toda parte”, e conta com uma programação totalmente gratuita e diversificada, trazendo debates, palestras, rodas de conversa, encontros de movimentos sociais, espaços autogestionados e apresentações culturais, atividade esportiva, além de shows com artistas locais e nacionais. Nomes como escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, o músico Arnaldo Antunes integram momentos de reflexão sobre a cultura, enquanto artistas como Tulipa Ruiz, Otto e Jau são presenças aguardas nas noites de shows na Praça Barão do Rio Branco. Este ano ainda, o evento abriu concurso que contemplará os artistas e as bandas locais para a participação no palco principal, como uma justa homenagem ao o radialista e ativista cultural Miguel Côrtes, morto em 2012.

A configuração do projeto pretende dar conta de oferecer espaços de convivência, encontros que gravitem entre práticas culturais simbólicas e a troca de experiências, possibilitando a reflexão coletiva sobre questões relacionadas à cidadania, educação, cultura, lazer e políticas públicas sociais.

Segundo o conquistense Danilo Moreira, que ocupou os cargos de Presidente do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) entre 2008 e 2010, e Secretário-Adjunto da Secretaria Nacional de Juventude (2007/ 2010), “realizar eventos que promovam o encontro entre cultura, política e juventude é importante para afirmarmos uma nova visão de sociedade, na qual a participação juvenil é um elemento fundamental. Fico feliz com a força deste tema em minha cidade". Assim como Danilo, que construiu um percurso em movimentos de juventude discutindo temas pertinentes a este amplo universo de perspectivas, o perfil dos participantes do evento trazem também para a pauta as demandas mais variadas, da postura política à diversidade sexual, da educação à produção criativa.

O Festival da Juventude – Ano II acontecerá entre os dias 10 e 12 de Maio de 2013, nos mais variados espaços públicos da cidade (veja programação), e manterá e expectativa – confirmada ano passado – da participação de jovens de todo o país. O projeto é uma realização da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, o apoio da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/Uesb, da Faculdade Independente do Nordeste/Fainor e do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima.

domingo, 5 de maio de 2013

O apoio a Maris Stella e a ordem dos loucos

Por Marcelo Lopes

Um dos textos mais geniais da nossa literatura tem por nome “O Alienista”, do célebre escritor Machado de Assis, o maior nome das letras no Brasil. No livro, a personagem central é Simão Bacamarte, um médico conceituado que passa a usar de critérios interpretativos da psiquiatria para julgar o comportamento das pessoas, enquadrando-os em várias espécies de loucura, e, nisto constatando, resolve interná-los um a um. No intuito de ser criterioso, comedido e dogmático em suas crenças técnicas, Bacamarte interna toda a cidade. Por fim, na conclusão de que, se afinal todos são loucos, e a normalidade ao qual somente ele se enquadra é a exceção, a definição do que está certo e errado fica patente: o médico liberta a todos e se enclausura no próprio hospício.

Há um hospício a espera de mais alguém na Bahia.

Alguém, que no tecnicismo das suas atitudes, segue em sentido contrário ao sentimento, à noção mais legítima do que é cultura e ao reconhecimento de uma cidade inteira ao trabalho de Maris Stella Schiavo Novaes como gestora do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Fato: Maris Stella acaba de ser exonerada – pasmem – por dar ao então falecido artista plástico J. Murilo, um ícone da cultura local, sua devida homenagem, permitindo seu velório no foyer do Centro, contrariando com isso a regra fria que normatiza tais espaços na Bahia. A alegação da Secretaria é que esta foi uma atividade particular, um velório puro e simples, que nada tem a ver com a cultura. No entanto, foram, em peso, artistas, produtores, atores, músicos, cineastas, escritores e inúmeros outros admiradores, os que compuseram o público daquela noite, das 16h às 22h, quando o velório foi transferido para outro lugar (este sim, particular). Um perfil de plateia mais significativa que em muitos espetáculos propostos pela própria SecultBa. Uma manifestação daqueles que, como representantes legítimos da cultura, marcaram sua presença para homenagear outro dos seus.

Sejamos sinceros: este é um espaço da cultura, para a cultura e que tem a cultura como finalidade, ou um tributo à burocracia? De quem de fato é o Centro de Cultura? De quem manda, fazendo obedecer quem tem juízo, ou de nós – pobres mortais – que, em tese, damos sentido a toda esta instituição que nos representa? Já me sinto sendo levado à minha cela, com uma tabelinha no prontuário pendurada ao pescoço, marcando os horários dos meus remédios a serem ministrados pelos enfermeiros da SecultBa.

O problema sempre é mais embaixo do que parece. Nos fazer crer que este foi o motivo real da exoneração, é, no mínimo, nos trocar da categoria de loucos para idiotas. Melhor seria que o órgão, sob o mesmo tom democrático que apresenta em nota pública a justificativa da exoneração, mantivesse abertos os ouvidos ao que toda a cidade de Vitória da Conquista acha desta atitude, no mínimo, contraditória. Nas duas formas de nos encarar, fica evidente que o ego de alguém - assim como ocorreu com Simão de Bacamarte - ainda não foi submetido a uma autoavaliação reveladora do quão distorcida é a sua percepção (sobre a cultura). Mais ainda: a empáfia da posição de poder, que a tudo quer medicar em benefício do coletivo, esquece quem de fato é o coletivo, deixando de lado o que é importante, sem levar em conta aqueles que dão legitimidade ao direito de sentar-se na cadeira que tão burocraticamente ocupa.

Nos últimos meses da gestão do CCCJL foi explícita a mudança e os avanços na dinâmica do espaço, com a total ocupação pela comunidade dos lugares de produção, discussão, reflexão e vivência pela cultura. Aquilo que chamam de cargo de confiança – lugar segundo o qual a SecultBa alega Maris Stella não ter sido obediente - perde o total sentido quando nos perguntamos, “confiança de quem?”.

Espero de verdade que este lugar cada dia mais torto que chamamos Bahia não seja o hospício de ninguém. Mas, ao mesmo tempo, que fique claro não temos medo de agulhas.


Segue abaixo o link da Petição Pública que pede a revogação da exoneração de Maris Stella Novaes:

#FicaMarisStella – Pela Democratização dos Espaços Culturais!
http://www.avaaz.org/po/petition/FicaMarisStella_Pela_Democratizacao_dos_Espacos_Culturais/?tvneGeb


 

sábado, 16 de março de 2013

Publicaram o Sintoma


Por Marcelo Lopes

O Sintoma de Cultura não chega a ser um acidente de percurso, mas nunca fez parte de um planejamento dentre as minhas dezenas de tarefas diárias. Não houve premeditação nem planos bem traçados, apenas aconteceu.

Em menos de um ano, o espaço virtual que me serviu de estímulo à escrita e às reflexões sobre a cultura também possibilitou o diálogo com muitas pessoas, que concordando ou discordando com o que escrevo, partilham do entendimento que a atividade cultural, qualquer que seja ela, precisa ser pensada e sentida para que nos beneficie.

O que escrevi neste poucos meses também referenciou este espaço virtual com um lugar de trocas, de compartilhamento de ideias principalmente com os amigos, parceiros e agentes/ produtores da cultura em todo lugar do país. Recebi emails e comentários bastante interessantes e isso por si só é gratificante; um bônus representativo para um lugar que nasceu sem muitas pretensões. 

A última desses gratos reconhecimentos veio de forma diferente, mas também interessante. Por isso, compartilho com vocês mais um ponto marcado pelas discussões do Sintoma. Abraço a todos e meu sincero apreço.

Fonte: www.locaweb.com.br/sobre-locaweb/revista.html

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Quem (en)canta nossa infância?

Por Marcelo Lopes

Passei o dia ouvindo Palavra Cantada, uma das propostas mais interessantes de músicas para o público infantil das últimas décadas, que tratam com respeito, inteligência e muito talento o universo dos pequenos. Formada em 1994 por Paulo Tatit e Sandra Peres, a dupla se destaca por canções infantis de linhas marcantes, com um cuidado especial na construção das letras, arranjos e gravações, envoltos numa sensível poética imaginativa. Um primor.

A exemplo da dupla, ainda é possível encontrar compositores com ideias criativas voltadas para esse público, entre eles, nomes conhecidos, como Arnaldo Antunes, autor de “Lavar as Mãos” e “Criança não Trabalha”; Adriana “Partimpim” Calcanhoto, interpretando, entre outras músicas, “Oito Anos” e “Trenzinho Caipira”; a banda Patu Fu, com um trabalho inteiro dedicado ao seu “Música de Brinquedo”, inteiramente gravado com instrumentos musicais de brinquedos como cornetas de plástico, xilofones, cavaquinhos, flauta doce, kazoo, glockenspiel e outras peças da musicalização infantil. Infelizmente, a lei de mercado não favorece que coisas assim se multipliquem com a mesma proporção da sua qualidade.

Em tempos de politicamente correto – onde tudo traumatiza, aleija, ofende, dá processo e vira debate público – ter e fazer músicas infantis de qualidade é um desafio mais ingrato que os obstáculos da velha Censura, que vigorou no Brasil até 03 de agosto de 1988. Penso nisto, não sendo purista, mas comparando dois períodos completamente diferentes, em que o critério de mediação é a qualidade de conteúdos que propiciam uma vivência saudável para cabeça das crianças que, em qualquer época, é e precisam ser crianças pra seres felizes.

Por isso, comecei a fuçar minhas lembranças... e a de outros também, pra não dizerem que a “nóia” sobre isso é só minha. Um dos registros mais gratos que tenho da infância, quando se trata de memórias musicais, se chama “A Arca de Noé”, de Vinícius de Moraes. Não apenas a gravação em disco, mas também os especiais de televisão, que traziam para a telinha as incríveis histórias musicadas do universo sonoro do “poetinha”. Um ímpeto criativo similarizado hoje por alguns artistas consagrados, dedicado a um olhar generoso capaz de povoar de sonhos o imaginário de milhares de crianças. Canções de Vinícius como “O Pato”, “A Casa”, “A Porta”, entre outras, se tornaram clássicas. Tratavam de temáticas simples, tangenciadas e extraídas de um mundo menos complicado, onde a garantia de felicidade podia estar numa simples partida de bolas de gude, num peão, jogos de pega-pega na rua, esconde-esconde, ioiôs para meninos e ou elástico, salada-mista e amarelinha para as meninas. Para não falar apenas de minhas impressões pessoais fui buscar em outro lugar considerações que acredito pontuarem bem o que digo.

Aretha Marcos, cantora, filha dos também cantores Antonio Marcos e Vanuza, viveu esta mesma época, com uma peculiar característica em relação às demais crianças: era ela quem estrelava na TV especiais infantis como A Arca de Noé (1981), além de outros que se seguiram como Pirlimpimpim (1982), Plunct, Plact, Zuuum (1983), Plunct, Plact, Zuuum... 2 (1984) e Pirlimpimpim 2 (1984). Suas memórias incluem um misto de diversão e trabalho. Principalmente, um afetuoso e respeitoso momento à condição da sua infância: “Minhas melhores lembranças ficam por conta do contato com o universo mágico da palavra poética do Vinícius, que se fazia entender por mim já naquela época”, resgata Aretha, ressaltando “o contato com os artistas e profissionais da época, que faziam de tudo para manter meu olhar infantil e lúdico diante de responsabilidades tão grandes para uma criança”.

Nos últimos anos vivemos um fenômeno maciço, preocupante, que encurta a infância, gerando pequenos adultos, ao tempo em que estica a juventude englobando todas as ideias, práticas e comportamentos envolvidos nessa longa faixa etária espichada. Um providencial aumento na faixa ativa de consumo de produtos, bens e serviços. A sexualização infantil é um dos aspectos agregados à este novo perfil consumista, como também é o aumento da banalização dos temas dedicados às crianças, reflexo daquilo que os pais também consomem e reproduzem em casa. Na música, veículo de excelência para a comunicação de comportamentos, é visível o pouco trato com o que se produz ou se oferta às crianças no Brasil. Ainda segundo Aretha, “existe público para todos os gostos, por isso mesmo deve haver música eclética, sempre visando a prestação de serviço cultural, educativo ou festivo que pede a canção infantil. Acho também que cabe aos pais selecionar aquilo que considerar adequado para os seus valores e crenças a ser compartilhado musicalmente entre seus filhos”.

A oferta de produtos culturais/musicais voltados para este público tão ávido, que consome cada dia mais rápido enquanto cresce, tende à expansão ainda maior e desenfreada se não houver regulação específica. Músicas de evidente apelo ao sexo, à violência ou que promovem a degradação humana são facilmente acessíveis e – pior – estimuladas em meios de comunicação e outras forma de difusão, sem o mínimo critério prático. A aproximação entre a criança-adulta e adulto-juvenil dilui estas questões no discurso do “normal” e do “na moda”, sem levar em conta os prejuízos decorrentes disto. É preciso que haja uma mediação equilibrada, que não se calque nem na paranoia do politicamente correto e nem no desbunde do consumo fácil. Todas as opções, daquilo que pode ser considerado bom ou ruim, estão à vista e à mão.

Ao poder público cabe regular, nunca censurar. Aos pais, o discernimento do que há de benéfico ao olhar, os ouvidos e a mentalidade das crianças, com critérios que mexem com a crítica autocrítica, fundamentada numa educação que muitos nem mesmo puderam ter, mas que é alcançável na medida do bom senso de cada um. O respeito é componente fundamental ao critério de ambos, sobretudo o respeito que preserva a criança em sua essência.

De alguma forma, é preciso resgatar a importância da sabedoria infantil, mesmo nos adultos, tema que, inclusive, finalizou meu papo com Aretha: “para mim o positivo e negativo está em tudo, é uma questão do olhar. Ser criança é um estado de alma. Acredito que independente de idade, devemos manter a criança no canto dos olhos, pronta para saltar diante da vida e fazer folia. A vida é uma festa onde todos podem ser convidados, é preciso ser criança para acreditar, e vencer”.

Meu abraço sincero e agradecido a Aretha pelas boas lembranças de infância... dela e minhas.