quarta-feira, 9 de novembro de 2005

Pátria muito minha

Há pouco tempo
Tempo pouco
Fiz (e venho fazendo)
Um caminho de volta.
E me vejo revendo gentes

Lugares, sorrisos
Circunstâncias
Desejos e sonhos já
Um tanto esmaecidos pelo tempo...



*********



Pátria minha



A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes."


********


... Eis-me, hoje,
de retorno a mim mesmo.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Um pouco de antropofagia para hoje

"Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.

(...)
Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. 

Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. 

(...)
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. 

(...)
Só não há determinismo, onde há mistério. Mas que temos nós com isso?"

(Oswald de Andrade - Manifesto antropofágico/1928)


quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Andei ouvindo...

(...)

E alguém igual não há de ter
Então quero mudar de lugar, eu quero estar no lugar
Da sala pra te receber
Na cor do esmalte que você vai escolher
Só para as unhas pintar
Quando é que você vai sacar
Que o vão que fazem suas mãos
É só porque você não está comigo
Só é possível te amar...
Seus pés se espalham em fivela e sandália
E o chão se abre por dois sorrisos
Virão guiando o seu corpo que é praia
De um escândalo charme macio
Que cor terá se derreter?
Que som os lábios vão morder?
Vem me ensinar a falar
Vem me ensinar ter você
Na minha boca agora mora o teu nome
É a vista que os meus olhos querem ter
Sem precisar procurar
Nem descansar e adormecer
Não quero acreditar que vou gastar desse modo a vida
Olhar pro sol só ver janela e cortina
No meu coração fiz um lar
O meu coração é o teu lar
E de que me adianta tanta mobília
Se você não está comigo
Só é possível te amar
Ouve os sinos, amor
Só é possível te amar
Escorre aos litros, o amor


(Composição: Nando Reis)

belas palavras...

"Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança

Em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva
Minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será


Palavras apenas
Palavras pequenas
Palavras momento


Palavras, palavras
Palavras, palavras
Palavras, ao vento"

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

"impossível, impossível vc diz..."

O que são
Dez contra um?
Cem contra meio?
Milhares contra mim?

Como se acha Uma ponta de agulha
Disfarçada de feno
No meio de um
Imenso palheiro?

Como se acerta
O ângulo
Mais agudo de um
Quarto redondo?

O que é de fato improvável?
Não se explica
Uma canção de milênios,
Ser cantada no
Parque infantil
Como uma novidade de ontem.

Nem que a agulha se ache fácil
Ou o ângulo seja onde esteja sentado.
O que é improvável,
Se fui surpreendido
Com a improbabilidade
De conhecer
Improvavelmente?

O que são milhares
De improbabilidades
Contra um
Se esse um existe?

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Faltam dias

Faltam dias no calendário...

Não é possível que não estejam faltando. Parece inacreditável que não estejam. (O frio na barriga é inacreditável).

Há algum tempo percebi que os dias são curtos demais, deviam ter pelo menos 28 horas cada. O tempo tem tido uma relação estranha comigo. Nem ele nem eu nos entendemos bem nos últimos tempos. Às vezes eu não o suporto, às vezes ele me dá um tiro no escuro.

Mas nos últimos dias, ele tem sido generoso... Logo quando eu ahava que sua pirraça seria intragável.

Não que eu esteja fazendo as pazes com ele. Mas parece que estamos em trégua... Não vou dizer que tenho achado isso bom...Mas elogiar, isso também não faço.

Assim também é demais também.

sexta-feira, 8 de julho de 2005

Uma história sobre nós...

Vou contar uma história absurda... conto de fadas....
Em algum lugar indefinido no tempo e no espaço, alguém amarrou um nó. O nó ficou ali, esticado, perambulando por entre pessoas, coisas, histórias, sonhos, medos, cenários.... um nó imenso, mas que, contrário ao que se possa compreender, foi feito para não ser visto. Não-tocável, imperceptível... mas o improvável é um primo distante do impossível e costuma aparecer de vez em quando....
Um dia, do nada, alguém puxou o nó! Puxou e segurou, meio hesitante, mas o manteve. Deixou-o ali, ao lado, sem a afobação dos tolos nem a indeferença dos intimamente estúpidos. E o guardou num lugar à vista. O nó percebeu... tanto percebeu que se deixou mostrar em outra ponta. Timidamente, as duas pontas se moveram... surdamente, aos poucos, tecendo tramas, essas sim, imperceptíveis,...
E sem que houvesse explicação maior, um dia, as duas pontas amarraram duas pessoas... soltas no tempo, perdidas no espaço. Até que então, presas, perceberam que o nó não lhes eram estranho, mais do que isso, era feito dos seus dois cabelos, de pedaços das duas peles, do visgo de ambos os olhos,... que era tecido de histórias incrivelmente parecidas, amarrado com os dons da palavra que brotavam dos dois lados, que era torcido sob uma força descomunal de ardor desmedido,... que se fechava em nó na batida ritmada dos dois corações.
E o que era absurdo virou o incrível, percorre matérias virtuais e alimenta duas vidas como uma imensa fênix renascida nas duas pontas... transformando o conto num canto, num sussurro, num acento no peito... numa paz bem-vinda, num sonho estranho e feliz...