quarta-feira, 27 de junho de 2012

Adeus a Dércio Marques

Por Marcelo Lopes

Ano passado - num desses pequenos momentos inesperados e pitorescos que ficam guardados na lembrança -, logo após sua apresentação pública na Praça Barão do Rio Branco, passei cerca de uma hora conversando com o cantor e compositor mineiro DércioMarques. Solícito (não o conhecia pessoalmente), conversamos como se estivéssemos continuando um papo da semana anterior.

Dono de um talento ímpar, de uma sensibilidade à flor da pele e de um cativante jeito simples, Dércio falou de como era bom ver um público “sadio” lotar os espaços públicos para ouvir um pedaço da nossa própria identidade popular, coisas que só mesmo o homem brasileiro tem e que em nenhum outro lugar do mundo se manifestam desta forma. Lembramos de pessoas que conhecíamos em comum (inclusive meu saudoso e querido amigo Jorge Melquisedeque). Falamos de amenidades e de coisas relevantes, esticamos o papo além do cumprimento normal de alguém que viu sua apresentação e achou tudo muito bom. Saí dali ainda mais fã do artista.

Num momento em que a dinâmica cultural de Vitória da Conquista permite que o trânsito de artistas de perfil regionais se exerça além dos grupos auto-referenciados ou em espaços “intelectualizados”, partilhando com um público cada vez maior o talento de nomes como Dercio Marques no mesmo patamar que qualquer outro espetáculo musical “comercial”, ficamos órfãos da sua presença num bom momento da cultura local.

Na madrugada desta quarta-feira, 27 de junho, Dércio Marques saiu de cena devido a complicações de saúde, falecendo na cidade de Salvador.

Ficou o legado de um artista que marcou seu talento ao lado de outros grandes como Elomar Figueira, Xangai, João do Vale, Paulinho Pedra Azul, Luis Di França e Pereira da Viola. Ficou também a obra de um defensor da natureza, da cultura popular do Brasil  e do bioma cerrado de sua infância. Ficou ainda, para mim – mais do que antes – a lembrança boa de um artista tão simples, sofisticado e profundo como as músicas que cantou.

Fica aqui meu abraço.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Seres Cinematográficos

Por Marcelo Lopes

O diretor Walter Lima Junior, em um artigo para a primeira edição da Revista Cinemais (voltada para os estudos sobre cinema e outros produtos audiovisuais, lançada em outubro de 1996 pela Editorial Cinemais), discorria sobre um termo realmente interessante: aquilo que ele chamou de “seres cinematográficos”. Tratava-se de atores e atrizes cujo talento e elasticidade interpretativa tivessem um elo quase orgânico com o cinema, fazendo com que seus personagens fossem construídos com os traços fortes das suas presenças cênicas ao ponto que estes tivessem sua essência quase que obrigatoriamente vinculada à grande tela, e aparentemente não se limitassem a espaços como palcos ou estúdios de TV. À época, o cineasta citava com exemplos os atores Murilo Benício e Fernanda Torres.
Pensando um pouco nessa categoria ímpar resolvi fazer minha própria lista. A razão de elencá-los é apenas o exercício simples de tentar ilustrar um painel de novas referências para grandes nomes que hoje emprestam rosto e vigor ao cinema brasileiro que conhecemos, como no passado outros intérpretes fizeram. Os critérios para a escolha de cada um deles foram baseados na freqüência com que filmam e no impacto de seus personagens na cinematografia nacional recente.
Wagner Moura – o ator baiano é um dos mais destacados nomes da nova geração do cinema nacional. De filmes que eu atuou apenas com pequenos personagens, como “Abril Despedaçado” (Walter Salles, 2001) e “Ó Paí, ó!” (Monique Gardenberg, 2007) a protagonistas impactantes como o Capitão Nascimento, de “Tropa de Elite” (José Padilha, 2007), sua capacidade de viver com a máxima intensidade e envolvimento cada um dos personagens que assume faz dele, talvez, o principal representante da nova geração do cinema no Brasil.
Alice Braga – sobrinha da atriz Sônia Braga, trilhou uma carreira sem o peso da comparação com a tia famosa, embora sua trajetória internacional seja um ponto comum entre as duas, além do imenso talento. Mesmo com uma carreira ainda muito curta, já deixou marcada sua forte participação desde o primeiro longa-metragem, como a adolescente Angélica, de “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles, 2002) e a stripper Karinna, de “Cidade Baixa” (Sérgio Machado, 2005). Com poucas participações em TV, seu rosto vem povoando diversos filmes hollywoodianos nos últimos anos, como “Eu Sou a Lenda” (Francis Lawrence, 2007), “Ensaio sobre a Cegueira” (Fernando Meirelles, 2009) e “On The Road” (Walter Salles, 2011).
Selton Mello – versátil, já atuou como dublador (Charlie Brown, do desenho Snoopy e Daniel Laruso, do filme “Karatê Kid”, entre outros), ator, diretor e produtor, mas fez sua carreira para o grande público como conhecido ator de TV, embora se dedique nos últimos anos com marcante participação em importantes filmes da nova safra do cinema nacional. Transitando com impressionante força tanto em papéis trágicos (“Lavoura Arcaica”, de Luis Fernando Carvalho, 2001) quanto cômicos (“Lisbela e o Prisioneiro”, de Guel Arraes, 2003) sua imagem é frequentemente associada ao que de melhor se tem feito no audiovisual do Brasil.
Dira Paes – muito longe dos personagens de TV que a consagraram (como a Solineuza, do Sitcom, “A Diarista” e a Norminha da novela “Caminho das Índias”), sua atuação no cinema supera a marca dos 25 filmes e seus papéis têm sempre o peso exato do seu talento, seja em filmes com um tom viral e cínico como em “Cronicamente Inviável” (Sergio Bianchi, 2000) ou em dramatizações cruas como em “Baixo das Bestas” (Claudio Assis, 2006). Não apenas pela força do seu trabalho, mas pela militância no meio cinematográfico, sua presença no cinema é um dos referenciais de um cinema com vistas a continuidade e qualidade.
Matheus Nachtergaele – responsável, segundo o escritor Ariano Suassuna, pela melhor personificação do seu emblemático João Grilo (“O Auto da Compadecida”, Guell Arraes, 1999), o ator é uma máquina de fazer filmes, trabalhando nas principais produções do que se convencionou a chamar de Cinema da Retomada, período coincidente com o início das suas atuações nas telas nacionais. Originariamente um ator de teatro, é dinâmico, instigante e, muitas vezes, faz de seus personagens inquietantes figuras cênicas, imprimindo nestes trejeitos, detalhes ou dimensões que caracterizam a composição de seu intérprete e que valeram a este prêmios importantes no teatro e no cinema.
Fernanda Torres – o fato de ser filha de nada menos que Fernanda Montenegro e Fernando Torres só contribuiu positivamente para a carreira da (já não tão jovem) atriz, mas que não poderia ficar de fora da lista dos “seres cinematográficos”, pela sua força cênica - impagável nos papéis cômicos, marcante nos dramas em que atuou. De filmes mais distantes (e não menos importantes) como “A Marvada Carne” (André Klotzel, 1985) e “Eu Sei que Vou te Amar” (Arnaldo Jabor, 1986) aos mais recentes “Terra Estrangeira” (Walter Salles, 1996) e “Casa de Areia” (Andrucha Waddington, 2005), seu talento transita entre as várias linguagens sem perder o tempo dramático nem deixar de convencer da verdade em seus personagens.
Lázaro Ramos – o baiano, vindo do Bando de Teatro Olodum, é um dos talentos mais destacados do renovado cenário de atores do país. Pontuando com grandes trabalhos no teatro e na TV, no cinema, onde atua desde 1995 (“Jenipapo”, Monique Gardemberg), viveu papéis fortes como o Ezequiel, em “Carandiru” (Hector Babenco, 2003), o André, de o “Homem que Copiava” (Jorge Furtado, 2003), o virulento João Francisco dos Santos, cujo apelido emprestou título a “Madame Satã” (Karim Aïnouz, 2002), além do aclamado Roque, de “Ó Paí, Ó!” (Monique Gardemberg, 2007), baseada na comédia musical baiana de mesmo nome. Sua forte presença cênica e talento o colocam entre o melhores atores brasileiros da atualidade.
Rodrigo Santoro – estigmatizado no início da carreira pela imagem do ator-rostinho-bonito-da-vez, o ator traçou seu caminho com personagens instigantes na TV e sobretudo no cinema, construindo personagens nada simplistas como o Wilson, de “Bicho de Sete Cabeças” (Laís Bodanski, 2001), o Tonho, de “Abril Despedaçado” (Walter Salles, 2001) e o travesti Lady Di, de “Carandiru’ (Hector Babenco, 2003). Lançou-se no mercado internacional, buscando quebrar outra barreira para o talento que cada vez mais fazia conhecer e começou a atuar em filmes hollywoodianos recentes como “300” (Zack Snyder, 2007) e “Che”, partes I e II (Steven Soderbergh, 2008), sem perder seu vínculo com o cinema brasileiro.

Não pretendo ser injusto com quaisquer outros atores e atrizes (atrizes estas que gostaria de poder elencar em maior número), mas esta é sim uma lista pessoal, embora aberta a sugestões (desde que sugestões coerentes). O mais importante é sabermos que nosso olhar cinematográfico, acostumado ainda hoje a ver Zezé Motta, Fernanda Montenegro, Marieta Severo, Sônia Braga, José Wilker, Betty Faria, entre tantos outros, não deve se perder na imagem de um cinema brasileiro estático, não-renovável, ou puramente uma extensão do que se faz na televisão. Oxigenar a grande tela exige partes iguais de dedicação de quem produziz, dirige, atua, distribui e assiste, e nesse último papel, não se enganem, está também a nossa responsabilidade.

domingo, 24 de junho de 2012

Reflexões para um futuro audiovisual em Vitória da Conquista

Por Marcelo Lopes
Há pouco mais de um ano publiquei este texto. De lá para cá pouca coisa mudou, embora as ideias para a implementação de uma dinâmica econômica voltada para o cinema em Vitória da Conquista tenham acrescentado mais uma pedra fundamental das ações que nunca saem da pedra fundamental.
Em março deste ano, o cineasta Orlando Sena (ex-secretário do Audiovisual do MinC no governo Lula), assinou um contrato de consultoria para um convênio de cooperação técnica e administrativa para implantação do Centro de Formação, Produção e Difusão Audiovisual no município firmado entre a Prefeitura Municipal e com a Uesb. Um esforço para que saia do papel mais uma iniciativa voltada para a área da cultura.
É preciso que se entenda – e efetivamente se aplique – a noção de que estimular a cultura não é mecenato, não é um ato de benevolência com quem toca, escreve ou faz artesanato, imagem muito comum para o gestor que lida administrativamente com outros recursos mais “importantes”, como a saúde e a educação.
A Economia da Cultura mobiliza recursos imensos em todo mundo e só fica atrás do mercado armamentista. O que chamamos hoje de Economia Criativa, vista de uma maneira objetiva e tratada de maneira respeitosa pelos nossos gestores, é uma área extremamente rentável e dinâmica, capaz de abarcar uma diversidade de expressões culturais e formas de desenvolvimento.
Por isso resolvi postar esse texto novamente aqui no blog: para insistir que Vitória da Conquista – assim como centenas de outras cidades no Brasil – tem que acreditar no seu próprio potencial, mas precisa que isso seja também uma atitude de persistência entre seus gestores. Se não vamos continuar inaugurando novas pedras fundamentais, indefinidamente.

-------------------------------------------------

 
Há cerca de vinte anos nosso cenário, nada diferente do resto do país, era o seguinte:
1) Os cinemas de rua passavam por um desgastante processo de fechamento. Restavam na cidade, no início da década de 1990, o Cine Glória (hoje, mais um templo evangélico) que dedicou seus últimos anos exibindo filmes pornográficos, e o Cine Madrigal, “o último dos moicanos” no mundo das exibições no modelo das salas mais antigas.
2) O moral do cinema brasileiro ia de mal a pior; vivíamos a Era Collor, que cuidou de piorar muito mais um quadro já cheio de descrétido nas produções nacionais (retirando todo o suporte que permitia aos produtores encamparem seus projetos). Com produções de gosto duvidoso, ver filme nacional para o grande público, também aqui, era sinônimo de perda de tempo.
3) A exibição doméstica de filmes, permitida pela febre dos videocassetes, nos dava acesso a uma filmografia vasta e possibilitava ainda que gravávamos não só filmes pela TV, mas seriados e o que mais nos interessasse, reduzindo a prática coletiva de ir à sala de cinema à sessões individuais ou em pequenos grupos dentro de casa. É nessa época que pipocam pelos quatro cantos as cópias piratas de filmes, que, inclusive, forneciam material a boa parte das dezenas de locadoras que abriam a cada semana na nossa cidade.
Nessa mesma época, Vitória da Conquista vivia um fenômeno peculiar: um dos filhos mais ilustres da cidade, o cineasta Glauber Rocha, era então um ilustríssimo desconhecido em sua própria terra natal. A exceção de algumas pessoas com mais idade para se lembrarem dele, por tê-lo conhecido ou aos seus familiares, e salvo um ou outro mais esclarecido, Glauber poderia ser, para boa parte dos que eram questionados nas ruas, tanto algum especialista na área médica quanto um novo cantor de Axé (não riam, eu mesmo presenciei isso!). Foi necessário muito trabalho para que o nome do cineasta fosse resgatado e novamente fizesse parte da história corrente do município.
Mas o que finalmente me move nesta reflexão temporal são as nossas perspectivas locais para o audiovisual; daquilo que temos hoje e do que já poderíamos ter, não fosse a ineficácia de muitas posturas institucionais.
Vitória da Conquista se referencia no setor de cinema e audiovisual por práticas sociais reconhecidas como o Programa Janela Indiscreta Cine Vídeo-Uesb; as edições sucessivas da Mostra Cinema Conquista; as ações cada vez mais eficientes na formação de profissionais do ensino voltados para a relação cinema-educação; os Ponto de Cultura que atuam também como exibidores; projetos como o Cine SESC, do SESC Conquista, o Cine Cidadão e o Cine Seis e Meia, da Prefeitura Municipal, além da recente implantação do curso graduação em Cinema e Audiovisual da Uesb, tornado possível justamente pela luta incessante de alguns guerreiros locais na busca de resignificar esta mudança de paradigmas, fruto de fatos como os acima citados, encenados nestes últimos vinte anos.
Apesar dos avanços dessas práticas, de um contexto tecnológico que permitiu o acesso a produção de obras audiovisuais dos mais variados suportes (tendo o meio digital principal ferramenta) e de uma série de políticas públicas que fomentaram um campo fértil de projetos, Vitória da Conquista ainda carece de uma política eficaz que privilegie a área que por si mesma se auto-referencia.
Vejam bem: não é simplesmente porque esta é a terra natal de Glauber Rocha que devemos ser destaque na área audiovisual; isto por si só não justifica. Mas não nos utilizarmos disto como mote é um desperdício. A cidade de Varginha, no interior de Minas Gerais, tem um festival inteiro de cinema (maior que a nossa mostra anual), cujo ícone é um boneco alienígena (veja www.etdeouro.com.br)! Temos um cineasta de renome internacional e não avançamos sequer em tirar do papel vários projetos que possam transformar a cidade num pólo produtor no setor. Este é apenas um dado da nossa realidade; dezenas de outros despontam a cada dia, a exemplo da quantidade de pequenos produtores audiovisuais, roteiristas, técnicos e realizadores que não encontram uma via de concretização de suas ideias no município e têm que se dirigir a outros centros produtores na busca de uma estrutura que já deveria estar disponível em Vitória da Conquista.
Neste sentido, há uma lacuna grave na postura da articulação do poder público com setores de interesse direto na busca de soluções para o desenvolvimento da área, que deveriam dar encaminhamento e suporte a ideias e proposições que surgem periodicamente.
Saindo do campo da simples especulação, um exemplo objetivo (dos vários, perfeitamente viáveis) que já foram discutidos e rediscutidos ao longo dos anos, é o projeto Kaza Glauber de Cinema, até hoje sem nenhuma resposta em qualquer instância que o remeta a concretização: a proposição, que visa criar um centro de produção, formação e difusão do audiovisual, tendo como referência a figura do cineasta conquistense, tem como ponto principal a convergência regional de todas as atividades do setor para o fortalecimento técnico e artístico dos realizadores. Viabilizável apenas por proponentes de representatividade pública, a proposta já foi apresentada e reapresentada em ocasiões distintas à Prefeitura e à Uesb (principais representantes do poder público na instancia cultural) ao longo dos anos, mas está parada há mais de sete anos, sem qualquer perspectiva de avanço.
Pensar o município em termos de futuro nesta área é apostar num filão cultural que já nos destaca, mas é preciso agir mais do que apenas discutir, para desenvolvermos e gerarmos frutos mais consistentes. Depende diretamente de uma aliança viável entre gestores, entidades de fomento, articuladores, realizadores e produtores culturais para que tudo isso saia do papel.
Já temos maturidade e história para tanto. Não dá para viver de rascunhos.

sábado, 23 de junho de 2012

Política de Cinema: caso de muito estudo e boa vontade

Por Marcelo Lopes

O Brasil tem um novo presidente; neste caso singular, uma presidente. Na sucessão dos mandatários do nosso país existem ângulos da História que nos cabem lembrar, já que um novo ciclo apenas se inicia - mesmo que alguns digam que apenas continue, mas este é outro assunto.
Comento tais questões para analisar não os atuais sucessos do mercado audiovisual (derivados de muitas decisões acertadas nas gestões passadas), mas para chamar a atenção sobre o quão deliberativas podem ser as ações de um novo governante sobre tudo o que nos diz respeito.
As políticas públicas de incentivo nos últimos anos têm sido fundamentais para a regulamentação do setor audiovisual no país, impulsionando o atual Cinema Brasileiro. A importância de uma gestão com um olhar atento à valorização dos nossos bens culturais foi imprescindível para que a ótima fase do nosso audiovisual alcançasse seus êxitos de produção e difusão.
Longe de fazer apologia política, o fato é que nos últimos doze anos (e principalmente nos últimos oito), a descentralização de recursos voltados para a Cultura permitiu um alcance e uma democratização no fazer cultural com apoio público sem precedentes: dos mais consagrados produtores do eixo Rio-SP aos pequenos grupos do terceiro setor (como o Ponto de Cultura Movimento Cultural Arte Manha, de Caravelas, Bahia), o acesso a políticas de financiamento tornou possível uma realidade produtiva cada dia mais profícua. Muito longe do que é possível ser, mas a léguas de distância do que já foi.
Em 1990, o Brasil ganhava um presente de grego; pior, elegia seu próprio presente de grego. Fernando Collor de Mello, dentre as muitas gracinhas que aprontou (como confisco das cadernetas de poupança e escândalos à la novela mexicana), foi o algoz do setor cultural brasileiro nos poucos mais de dois anos em que fez da nação o quintal da Casa da Dinda. À época, Collor, com sua política neoliberal, acabou com os principais órgãos reguladores do cinema brasileiro, dizimando instituições como a Embrafilme, que mesmo inchada e inoperante, ainda era o maior suporte de viabilização do mercado nacional de audiovisual. Acabou com o Conselho Nacional de Cinema – Concine e com a Fundação do Cinema Brasileiro, além de reduzir o Ministério da Cultura a uma simples Secretaria de Estado, ligada ao Gabinete da Presidência. As leis de incentivo à produção e exibição, a regulamentação do mercado e até mesmo os órgãos encarregados de produzir estatísticas sobre o cinema no Brasil foram extintos.
Segundo o discusso vigente, encabeçado pelo Presidente-garotão, o mercado deveria “auto-regulamentar-se”, sem interferência do Estado. Na prática, isso significava uma abertura indistinta de mercado, totalmente à mercê das especulações e da maciça investida internacional, sem reservas mínimas para a produção local, onde os estragos para o Cinema e o audiovual brasileiro não poderiam ser piores. A produção nacional caiu a praticamente zero de um ano para outro. Em 1992, último ano do governo Collor, um único filme brasileiro chegou às telas: A Grande Arte, de Walter Salles, falado em inglês e ocupante de menos de 1% do mercado.
Resultado mais visível, impossível. Nosso cinema foi relegado a poucas iniciativas; os festivais, principais vitrines do cinema nacional passaram a incluir curtas-metragens no lugar dos longas na programação competitiva ou deixavam de ter suas edições anualmente. A captação de recursos para realização de novos filmes se tornou inviável, uma vez que o mercado interno não comprava a ideia e os investidores estrangeiros sequer tomavam conhecimento do que era ou poderia ser feito por aqui. Somente com a promulgação da Lei 8.685/93, a chamada Lei do Audiovisual, que permitia o investimento em produções nacionais pela via da isenção fiscal, foi que as primeiras golfadas de ar se expandiram pelo pulmões das nossas telas de cinema, exibindo nossos próprios rostos nas sessões de filmes do país. Não por acaso, os filmes que emergiram da grave crise buscaram resgatar quem somos, com temas que invariavelmente falavam sobre as diversas facetas da nossa identidade: Carlota Joaquina (1994, de Carla Camurati), O Quatrilho (1995, de Fábio Barreto), O que É isso, Companheiro? (1996, Bruno Barreto) e Central do Brasil (1997, de Walter Salles) são obras fundamentais daquilo que ficou conhecido como Cinema da Retomada.
Hoje, quando vivemos a era Dilma, esperamos mais do que garantias que disparidades como aquelas não ocorram; esperamos que as conquistas já alcançadas avancem; que nosso mercado tome proporções ainda maiores, mais efetivas, mais profissionais. Infelizmente, na gestão Ana de Holanda, diferente do processo de descentralização dos recursos promovido pelo Ministério nos últimos oito anos, o compromisso se estreita muito mais facilmente com políticas como a do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição – ECAD - cujos principais colaboradores fazem parte hoje do staf do MinC. A pauta tem dado uma guinada perigosa para o retrocesso e a continuidade de um pensamento de atraso e protecionismo. É preciso que os avanços permaneçam como um norte para o crescimento; que a descentralização de recursos na Cultura atinja produções vindas de ideias nascidas nos quatro cantos do território. E que isso se multiplique. Esses são mais que meus desejos para o governo atual, são minhas cobranças.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Instituto Mandacaru realiza Oficina sobre Quentin Tarantino no I Festival da Juventude de Vitória da Conquista


Por Marcelo Lopes

O norte-americano Quentin Tarantino é um dos cineastas da safra anos 90 que se mantém no seu pleno vigor criativo. Talhado primeiro como um cinéfilo inveterado nos anos que passou como um desconhecido funcionário de locadora e depois como roteirista e diretor de filmes que passaram a refinar sua linguagem ácida, veloz e violenta, Tarantino é hoje uma das maiores figuras de Hollywood, se alimentando da cultura pop estududinense do mesmo modo com se apropria dela para realizar suas obras.

Conhecido no mundo inteiro por filmes como "Cães de Aluguel", "Pulp Fiction" e "Kill Bill", entre outros, o diretor foi tema da oficina "A Linguagem de Quentin Tarantino e a Cultura Pop Norte-americana", ministrada por Marcelo Lopes e Luciana Oliveira no dia 06 de maio, durante a programação do I Festival da Juventude de Vitória da Conquista. 

Pontuando as características mais marcantes do cineasta com os signos da cultura pop hollywoodiana, como o culto aos  ícones do cinema, ao faroeste, aos seriados de Kung Fu, aos gangsters e à violência - tanto real quanto metafórica -, os dois ministrantes traçaram uma linha cronológica da cinematografia de Tarantino, ligando as múltiplas referências do amercian way of life ao emaranhado de citações cinematográficas que levantam discussões acaloradas sobre o fato de o cineasta ser um grande plagiador ou um incrível releitor de obras e símbolos consagrados.

 Na opinão geral durante a oficina, Tarantino é, no mínimo um excelente recriador de histórias, capaz de fazer da sua linguam peculiar, um atrativo estilo narrativo.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Educação (audiovisual), por favor

 Por Marcelo Lopes
Tenho dois filhos pequenos (e até então você me pergunta: “e daí?”). Daí que, como todo pai – ou pelo menos deveria ser assim – me preocupo com o que eles assistem, com o que ouvem, com o tipo de informação que são bombardeados diariamente, sobretudo porque são crianças e- em tese – são mais suscetíveis a serem influenciados que nós adultos.
Em tempos de Facebook, de Big Brother, de DJ’s de ônibus (cujo repertório tem contribuído muito para o aumento do sofrimento da classe trabalhadora) e de uma TV aberta que cumpre fielmente o papel de “fábrica de doidos”, como diziam os mais velhos, fico aqui pensando nas disparidades entre o quanto conseguimos avançar quantitativamente com a tecnologia do nosso universo digital, com milhões de acessos a um simulacro de mundo ao alcance da mão, ao tempo que, na mesma medida, nos esvaziamos tão sintomaticamente em conteúdos.
Acostumados ao que nos é oferecido goela abaixo na TV, nos cinemas, nas rádios e na internet, nossos critérios seletivos estão cada dia mais rasos. Se não temos no Brasil mais nenhum movimento cinematográfico identificável como um Cinema Novo, um Cinema Marginal ou mesmo um Cinema da Retomada (que como já afirmei em outro artigo nem chegou a ser um movimento), nosso empenho em alcançar este mesmo cinema mais profissional tem já tem gerado sucessos de mercado, de público e de até de crítica. A sombra de uma não concretizada indústria cinematográfica brasileira ainda paira sobre nós, mas temos enfrentado tudo com mais eficiência.
O acesso aos filmes brasileiros (seja qual for o suporte: cinema, DVD ou mesmo infielmente pela internet) e sua aceitação por parte das grandes platéias são resultado desta nova configuração que se associa a chamada convergência tecnológica: a imbricação de meios de comunicação, linguagens e consumos, afunilados cada vez mais para suportes tecnológicos multi-tarefas, a exemplo dos aparelhos de telefonia móvel e tablets.
Se a possibilidade de produzir mais, veicular mais e experimentar mais é uma realidade, o volume de besteiras que nos empurram para consumir também aumentou exponencialmente. Fazer um vídeo caseiro e postá-lo no youtube ou outro site equivalente é muito comum a qualquer sujeito com um celular habilitado com câmera e um Movie Maker (software padrão do Windows para edição de vídeo) no computador. As novas experiências audiovisuais permitem um exercício tão benéfico para absorção da linguagem que vem trazendo muita gente com ideias legais para o cenário do curta-metragem, digital ou não.
Infelizmente, estes são minoria.
Para cada um bom realizador, a internet dispõe uma infinidade de outros geradores de virais “audiovidionéticos” que publicam e difundem desde a patinha-da-cachorra-quebrada-da-rua-vizinha-da-casa-da-sua-tia até o último cadáver da quarta-feira. E, acreditem, estes últimos têm mais audiência. Não bastasse isso, a TV agora adotou – de vez – a exibição em horário nobre das velhas videocassetadas da web ao invés de dar espaço para uma oportuna e séria produção audiovisual recente que – garanto – muito mais teria a oferecer, a um público carente de oxigenar suas mentes. Isto porque vivemos um turbilhão de possibilidades audiovisuais nunca antes alcançado, e essa oferta é marcada por uma característica visivelmente presente: o desvio da atenção do conteúdo para a forma, que gera uma banalização grotesca de inúmeros temas. Trocando em miúdos: o importante é dizer, não importa o quê, e se o que se diz chama a atenção de um número cada vez maior de pessoas, tanto melhor.
Daí que retomo o tema inicial: o raio de influência da indiscriminada produção audiovisual atual, que engloba desde a mais bem produzida novela a propagandas de cervejas, de longas-metragens blockbusters a vídeos experimentais de escolas e registros banais em aparelhos celulares, tudo isso ultrapassa e muito a esfera da faixa etária recomendada para crianças. Mas estão todos disponíveis a todas idades e, muito pior, incentivados a um consumo desenfreado.
Nosso papel como espectadores e como formadores de opinião é ir além do óbvio, exercitar a crítica, pensar e questionar onde está a regulamentação do Estado sobre tudo isto, sabendo – afirmativamente – que  este mesmo critério de regulação depende sobretudo, da nossa própria postura, da nossa auto-regulação. E não confundam isto com censura. Acredito sinceramente que não há nada de mal em debochar de um assunto qualquer, afinal o humor é a melhor arma de uma boa crítica. O problema é que nenhum assunto volátil pode, ou deve, ocupar tanta atenção por tão pouco e por tão longo tempo e alcance. Esta é a realidade da importância dada ao desimportante.
        Este é o silêncio grave que assola temas deste teor. Talvez não tão silencioso se compartilharem no Facebook... pelo menos até que outra pessoa viaje para o Canadá.

Depois do 3D, o cinema 4D?

O cinema está morto, diz o britânico Peter Greenaway. Diretor de "O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante" (1989), "A Última Tempestade" (1991) e "O Livro de Cabeceira" (1995), todos disponíveis em DVD no Brasil, ele veio a São Paulo nesta semana para fazer uma palestra da série Fronteiras do Pensamento.
Greenaway acredita que o cinema narrativo (aquele que se limita a contar histórias, como se fosse um romance, muitas vezes recorrendo mais à palavra do que às imagens) já deu o que tinha para dar, e que o audiovisual precisa começar de novo, a partir do zero.
Faz tempo que Greenaway bate nessa tecla. Para ele, os filmes realizados hoje por um diretor como Martin Scorsese são essencialmente idênticos aos realizados, há quase um século, por D. W. Griffith, com atualizações de caráter tecnológico, mas pouca variação na linguagem.
Os projetos nos quais Greenaway tem se envolvido, nos últimos anos, demonstram sua inquietude em relação aos limites do cinema convencional.
Esses limites incluem, na sua análise, a falta de interatividade e a obrigação de ficar sentado em uma sala escura, olhando para a tela, por duas horas. Muito aborrecido, afirma ele.
Óperas, instalações interativas e filmes que exploram os recursos digitais para a sobreposição de imagens são algumas das tentativas recentes de Greenaway na exploração de novos territórios para o audiovisual.
O cineasta inglês não parece estar sozinho em seu julgamento do cinema narrativo convencional. O investimento da indústria norte-americana em superproduções 3D demonstra que também ela está preocupada com o possível esvaziamento do cinema como negócio tal como o conhecemos desde a década de 1930.
Preocupada em oferecer novos atrativos para tornar mais atraente a experiência cinematográfica, sobretudo para as novas gerações, a indústria começa agora a experimentar a projeção 4D. Desta vez, o ganho não aparece na tela, mas na poltrona, que se movimenta de acordo com a ação do filme, como já acontece em pequenas salas e brinquedos de parques de diversão.
A jornalista Helen O'Hara, da revista britânica "Empire", assistiu a uma exibição de "Os Vingadores" em 4D, e diz que achou a experiência estranha, embora reconheça que ela possa ser interessante para muita gente. Clique aqui para ler o texto (em inglês).
Para avançar nesse caminho, a indústria precisaria fazer um investimento grandioso para reequipar as salas de exibição. E, claro, abastecer o mercado regularmente com filmes que se prestassem a essa experiência. Ou você imagina "O Artista" em 4D, com a poltrona balançando sempre que o cachorro do protagonista sair em disparada?