sábado, 23 de junho de 2012

Política de Cinema: caso de muito estudo e boa vontade

Por Marcelo Lopes

O Brasil tem um novo presidente; neste caso singular, uma presidente. Na sucessão dos mandatários do nosso país existem ângulos da História que nos cabem lembrar, já que um novo ciclo apenas se inicia - mesmo que alguns digam que apenas continue, mas este é outro assunto.
Comento tais questões para analisar não os atuais sucessos do mercado audiovisual (derivados de muitas decisões acertadas nas gestões passadas), mas para chamar a atenção sobre o quão deliberativas podem ser as ações de um novo governante sobre tudo o que nos diz respeito.
As políticas públicas de incentivo nos últimos anos têm sido fundamentais para a regulamentação do setor audiovisual no país, impulsionando o atual Cinema Brasileiro. A importância de uma gestão com um olhar atento à valorização dos nossos bens culturais foi imprescindível para que a ótima fase do nosso audiovisual alcançasse seus êxitos de produção e difusão.
Longe de fazer apologia política, o fato é que nos últimos doze anos (e principalmente nos últimos oito), a descentralização de recursos voltados para a Cultura permitiu um alcance e uma democratização no fazer cultural com apoio público sem precedentes: dos mais consagrados produtores do eixo Rio-SP aos pequenos grupos do terceiro setor (como o Ponto de Cultura Movimento Cultural Arte Manha, de Caravelas, Bahia), o acesso a políticas de financiamento tornou possível uma realidade produtiva cada dia mais profícua. Muito longe do que é possível ser, mas a léguas de distância do que já foi.
Em 1990, o Brasil ganhava um presente de grego; pior, elegia seu próprio presente de grego. Fernando Collor de Mello, dentre as muitas gracinhas que aprontou (como confisco das cadernetas de poupança e escândalos à la novela mexicana), foi o algoz do setor cultural brasileiro nos poucos mais de dois anos em que fez da nação o quintal da Casa da Dinda. À época, Collor, com sua política neoliberal, acabou com os principais órgãos reguladores do cinema brasileiro, dizimando instituições como a Embrafilme, que mesmo inchada e inoperante, ainda era o maior suporte de viabilização do mercado nacional de audiovisual. Acabou com o Conselho Nacional de Cinema – Concine e com a Fundação do Cinema Brasileiro, além de reduzir o Ministério da Cultura a uma simples Secretaria de Estado, ligada ao Gabinete da Presidência. As leis de incentivo à produção e exibição, a regulamentação do mercado e até mesmo os órgãos encarregados de produzir estatísticas sobre o cinema no Brasil foram extintos.
Segundo o discusso vigente, encabeçado pelo Presidente-garotão, o mercado deveria “auto-regulamentar-se”, sem interferência do Estado. Na prática, isso significava uma abertura indistinta de mercado, totalmente à mercê das especulações e da maciça investida internacional, sem reservas mínimas para a produção local, onde os estragos para o Cinema e o audiovual brasileiro não poderiam ser piores. A produção nacional caiu a praticamente zero de um ano para outro. Em 1992, último ano do governo Collor, um único filme brasileiro chegou às telas: A Grande Arte, de Walter Salles, falado em inglês e ocupante de menos de 1% do mercado.
Resultado mais visível, impossível. Nosso cinema foi relegado a poucas iniciativas; os festivais, principais vitrines do cinema nacional passaram a incluir curtas-metragens no lugar dos longas na programação competitiva ou deixavam de ter suas edições anualmente. A captação de recursos para realização de novos filmes se tornou inviável, uma vez que o mercado interno não comprava a ideia e os investidores estrangeiros sequer tomavam conhecimento do que era ou poderia ser feito por aqui. Somente com a promulgação da Lei 8.685/93, a chamada Lei do Audiovisual, que permitia o investimento em produções nacionais pela via da isenção fiscal, foi que as primeiras golfadas de ar se expandiram pelo pulmões das nossas telas de cinema, exibindo nossos próprios rostos nas sessões de filmes do país. Não por acaso, os filmes que emergiram da grave crise buscaram resgatar quem somos, com temas que invariavelmente falavam sobre as diversas facetas da nossa identidade: Carlota Joaquina (1994, de Carla Camurati), O Quatrilho (1995, de Fábio Barreto), O que É isso, Companheiro? (1996, Bruno Barreto) e Central do Brasil (1997, de Walter Salles) são obras fundamentais daquilo que ficou conhecido como Cinema da Retomada.
Hoje, quando vivemos a era Dilma, esperamos mais do que garantias que disparidades como aquelas não ocorram; esperamos que as conquistas já alcançadas avancem; que nosso mercado tome proporções ainda maiores, mais efetivas, mais profissionais. Infelizmente, na gestão Ana de Holanda, diferente do processo de descentralização dos recursos promovido pelo Ministério nos últimos oito anos, o compromisso se estreita muito mais facilmente com políticas como a do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição – ECAD - cujos principais colaboradores fazem parte hoje do staf do MinC. A pauta tem dado uma guinada perigosa para o retrocesso e a continuidade de um pensamento de atraso e protecionismo. É preciso que os avanços permaneçam como um norte para o crescimento; que a descentralização de recursos na Cultura atinja produções vindas de ideias nascidas nos quatro cantos do território. E que isso se multiplique. Esses são mais que meus desejos para o governo atual, são minhas cobranças.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Instituto Mandacaru realiza Oficina sobre Quentin Tarantino no I Festival da Juventude de Vitória da Conquista


Por Marcelo Lopes

O norte-americano Quentin Tarantino é um dos cineastas da safra anos 90 que se mantém no seu pleno vigor criativo. Talhado primeiro como um cinéfilo inveterado nos anos que passou como um desconhecido funcionário de locadora e depois como roteirista e diretor de filmes que passaram a refinar sua linguagem ácida, veloz e violenta, Tarantino é hoje uma das maiores figuras de Hollywood, se alimentando da cultura pop estududinense do mesmo modo com se apropria dela para realizar suas obras.

Conhecido no mundo inteiro por filmes como "Cães de Aluguel", "Pulp Fiction" e "Kill Bill", entre outros, o diretor foi tema da oficina "A Linguagem de Quentin Tarantino e a Cultura Pop Norte-americana", ministrada por Marcelo Lopes e Luciana Oliveira no dia 06 de maio, durante a programação do I Festival da Juventude de Vitória da Conquista. 

Pontuando as características mais marcantes do cineasta com os signos da cultura pop hollywoodiana, como o culto aos  ícones do cinema, ao faroeste, aos seriados de Kung Fu, aos gangsters e à violência - tanto real quanto metafórica -, os dois ministrantes traçaram uma linha cronológica da cinematografia de Tarantino, ligando as múltiplas referências do amercian way of life ao emaranhado de citações cinematográficas que levantam discussões acaloradas sobre o fato de o cineasta ser um grande plagiador ou um incrível releitor de obras e símbolos consagrados.

 Na opinão geral durante a oficina, Tarantino é, no mínimo um excelente recriador de histórias, capaz de fazer da sua linguam peculiar, um atrativo estilo narrativo.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Educação (audiovisual), por favor

 Por Marcelo Lopes
Tenho dois filhos pequenos (e até então você me pergunta: “e daí?”). Daí que, como todo pai – ou pelo menos deveria ser assim – me preocupo com o que eles assistem, com o que ouvem, com o tipo de informação que são bombardeados diariamente, sobretudo porque são crianças e- em tese – são mais suscetíveis a serem influenciados que nós adultos.
Em tempos de Facebook, de Big Brother, de DJ’s de ônibus (cujo repertório tem contribuído muito para o aumento do sofrimento da classe trabalhadora) e de uma TV aberta que cumpre fielmente o papel de “fábrica de doidos”, como diziam os mais velhos, fico aqui pensando nas disparidades entre o quanto conseguimos avançar quantitativamente com a tecnologia do nosso universo digital, com milhões de acessos a um simulacro de mundo ao alcance da mão, ao tempo que, na mesma medida, nos esvaziamos tão sintomaticamente em conteúdos.
Acostumados ao que nos é oferecido goela abaixo na TV, nos cinemas, nas rádios e na internet, nossos critérios seletivos estão cada dia mais rasos. Se não temos no Brasil mais nenhum movimento cinematográfico identificável como um Cinema Novo, um Cinema Marginal ou mesmo um Cinema da Retomada (que como já afirmei em outro artigo nem chegou a ser um movimento), nosso empenho em alcançar este mesmo cinema mais profissional tem já tem gerado sucessos de mercado, de público e de até de crítica. A sombra de uma não concretizada indústria cinematográfica brasileira ainda paira sobre nós, mas temos enfrentado tudo com mais eficiência.
O acesso aos filmes brasileiros (seja qual for o suporte: cinema, DVD ou mesmo infielmente pela internet) e sua aceitação por parte das grandes platéias são resultado desta nova configuração que se associa a chamada convergência tecnológica: a imbricação de meios de comunicação, linguagens e consumos, afunilados cada vez mais para suportes tecnológicos multi-tarefas, a exemplo dos aparelhos de telefonia móvel e tablets.
Se a possibilidade de produzir mais, veicular mais e experimentar mais é uma realidade, o volume de besteiras que nos empurram para consumir também aumentou exponencialmente. Fazer um vídeo caseiro e postá-lo no youtube ou outro site equivalente é muito comum a qualquer sujeito com um celular habilitado com câmera e um Movie Maker (software padrão do Windows para edição de vídeo) no computador. As novas experiências audiovisuais permitem um exercício tão benéfico para absorção da linguagem que vem trazendo muita gente com ideias legais para o cenário do curta-metragem, digital ou não.
Infelizmente, estes são minoria.
Para cada um bom realizador, a internet dispõe uma infinidade de outros geradores de virais “audiovidionéticos” que publicam e difundem desde a patinha-da-cachorra-quebrada-da-rua-vizinha-da-casa-da-sua-tia até o último cadáver da quarta-feira. E, acreditem, estes últimos têm mais audiência. Não bastasse isso, a TV agora adotou – de vez – a exibição em horário nobre das velhas videocassetadas da web ao invés de dar espaço para uma oportuna e séria produção audiovisual recente que – garanto – muito mais teria a oferecer, a um público carente de oxigenar suas mentes. Isto porque vivemos um turbilhão de possibilidades audiovisuais nunca antes alcançado, e essa oferta é marcada por uma característica visivelmente presente: o desvio da atenção do conteúdo para a forma, que gera uma banalização grotesca de inúmeros temas. Trocando em miúdos: o importante é dizer, não importa o quê, e se o que se diz chama a atenção de um número cada vez maior de pessoas, tanto melhor.
Daí que retomo o tema inicial: o raio de influência da indiscriminada produção audiovisual atual, que engloba desde a mais bem produzida novela a propagandas de cervejas, de longas-metragens blockbusters a vídeos experimentais de escolas e registros banais em aparelhos celulares, tudo isso ultrapassa e muito a esfera da faixa etária recomendada para crianças. Mas estão todos disponíveis a todas idades e, muito pior, incentivados a um consumo desenfreado.
Nosso papel como espectadores e como formadores de opinião é ir além do óbvio, exercitar a crítica, pensar e questionar onde está a regulamentação do Estado sobre tudo isto, sabendo – afirmativamente – que  este mesmo critério de regulação depende sobretudo, da nossa própria postura, da nossa auto-regulação. E não confundam isto com censura. Acredito sinceramente que não há nada de mal em debochar de um assunto qualquer, afinal o humor é a melhor arma de uma boa crítica. O problema é que nenhum assunto volátil pode, ou deve, ocupar tanta atenção por tão pouco e por tão longo tempo e alcance. Esta é a realidade da importância dada ao desimportante.
        Este é o silêncio grave que assola temas deste teor. Talvez não tão silencioso se compartilharem no Facebook... pelo menos até que outra pessoa viaje para o Canadá.

Depois do 3D, o cinema 4D?

O cinema está morto, diz o britânico Peter Greenaway. Diretor de "O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante" (1989), "A Última Tempestade" (1991) e "O Livro de Cabeceira" (1995), todos disponíveis em DVD no Brasil, ele veio a São Paulo nesta semana para fazer uma palestra da série Fronteiras do Pensamento.
Greenaway acredita que o cinema narrativo (aquele que se limita a contar histórias, como se fosse um romance, muitas vezes recorrendo mais à palavra do que às imagens) já deu o que tinha para dar, e que o audiovisual precisa começar de novo, a partir do zero.
Faz tempo que Greenaway bate nessa tecla. Para ele, os filmes realizados hoje por um diretor como Martin Scorsese são essencialmente idênticos aos realizados, há quase um século, por D. W. Griffith, com atualizações de caráter tecnológico, mas pouca variação na linguagem.
Os projetos nos quais Greenaway tem se envolvido, nos últimos anos, demonstram sua inquietude em relação aos limites do cinema convencional.
Esses limites incluem, na sua análise, a falta de interatividade e a obrigação de ficar sentado em uma sala escura, olhando para a tela, por duas horas. Muito aborrecido, afirma ele.
Óperas, instalações interativas e filmes que exploram os recursos digitais para a sobreposição de imagens são algumas das tentativas recentes de Greenaway na exploração de novos territórios para o audiovisual.
O cineasta inglês não parece estar sozinho em seu julgamento do cinema narrativo convencional. O investimento da indústria norte-americana em superproduções 3D demonstra que também ela está preocupada com o possível esvaziamento do cinema como negócio tal como o conhecemos desde a década de 1930.
Preocupada em oferecer novos atrativos para tornar mais atraente a experiência cinematográfica, sobretudo para as novas gerações, a indústria começa agora a experimentar a projeção 4D. Desta vez, o ganho não aparece na tela, mas na poltrona, que se movimenta de acordo com a ação do filme, como já acontece em pequenas salas e brinquedos de parques de diversão.
A jornalista Helen O'Hara, da revista britânica "Empire", assistiu a uma exibição de "Os Vingadores" em 4D, e diz que achou a experiência estranha, embora reconheça que ela possa ser interessante para muita gente. Clique aqui para ler o texto (em inglês).
Para avançar nesse caminho, a indústria precisaria fazer um investimento grandioso para reequipar as salas de exibição. E, claro, abastecer o mercado regularmente com filmes que se prestassem a essa experiência. Ou você imagina "O Artista" em 4D, com a poltrona balançando sempre que o cachorro do protagonista sair em disparada?


sábado, 29 de outubro de 2011

Confira a programação de filmes da Mostra Cinema Conquista- Ano 7

Por Laís Vinhas
 
Cinéfilos de Vitória da Conquista e região, fiquem ligados, pois saiu a programação de filmes longas e curtas metragens, além das oficinas e conferências da Mostra Cinema Conquista – Ano 7, que acontece em nossa cidade entre os dias 8 e 12 de novembro.
Com a proposta de ampliar a democratização do acesso e da diversidade da produção cinematográfica, a Mostra conta com uma programação diversificada: cerca de 50 filmes brasileiros, entre longas, médias e curtas-metragens da produção atual, produzidos de norte a sul do país, e também atividades de formação de público.
Saiba mais sobre a programação:

Filmes
Todos os filmes serão exibidos no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. A programação acontece durante a tarde e a noite. À tarde começa às 14h, e à noite, às 19h30.
Os filmes de abertura são o longa “Jardim das folhas sagradas”, de Póla Ribeiro e o curta “A morte das velas do Recôncavo”, de Guido Araújo, que é o homenageado da Mostra neste ano.
No total, são 13 longas-metragens nacionais: “Léo e Bia”, “Vips”, Eu e meu guarda chuva”, “As melhores coisas do mundo”, “O homem que não dormia”, “Um lugar ao sol”, “Elvis e Madona”, “Terra deu, Terra come”, “Transeunte”, “Na quadrada das águas perdidas”, “Estamos juntos”, “Riscados”, “Jardim das folhas sagradas”.
E não para por aí: você também vai poder assistir a 25 curtas-metragens produzidos pelo país que serão exibidos em horários alternados, durante todo o dia: 16h, 19h e 20h; sem contar com os 12 curtas baianos – sempre às 14h.

Conferências, oficinas, homenagem e exposição
Acontecerão também, no Teatro Glauber Rocha, na Uesb, as conferências e palestras, abertas a quem quiser assistir, sempre pela manhã, a partir das 9h.
As oficinas de Direção em Cinema (ministrada por Rodrigo Grota), A Pedagogia do Cinema e o Espectador como Sujeito (Rosália Duarte), e Direção de Arte para Cinema (Moacyr Gramacho), acontecerão também na Uesb.
No foyer do Centro de Cultura acontecerá uma exposição com a trajetória do homenageado da Mostra, o cineasta e professor Guido Araújo.

Fonte: http://www.vitoriadaconquista.com.br/2011/10/28/confira-a-programacao-de-filmes-da-mostra-cinema-conquista-ano-7/

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Lições de Casa

Em primeiro lugar, não vou dizer que sou contra o Oscar. Mas também não sou a favor. Entendam: o prêmio mais cobiçado pelo cinema mundial tem sim todo o glamour que costumam mostrar, tem rios, oceanos de dinheiro envolvidos, tem todos os rostos mais famosos da grande tela, tem a força de uma indústria mundial e economicamente hegemônica. Tem isso tudo e um monte de outras coisas. Mas não é para nós. Não porque ache que não é para o nosso bico. A verdade é que não é para o nosso umbigo. É para o umbigo dos norte-americanos (e alguns de seus sócios, logicamente).
O Oscar é a celebração máxima de um tipo de cinema feito pelos americanos, para os americanos e vendável para o resto do mundo, dentro dos critérios estabelecidos por eles mesmos. Ponto parágrafo; “zefiní”. Qualquer variável além desta, como prêmios de melhor filme estrangeiro ou outras brechas que certas categorias possam legar beneplacitamente a filmes de outras nacionalidades, só encontram espaços devido aos lobbys fortíssimos junto à Academia Norte-Americana de Cinema e suas grandes produtoras.
Hollywood é um produto extremamente comercial e egocêntrico, cujas estrelas que gravitam no seu entorno vivem dos interesses do seu próprio mundo, de olho no que o mundo dos outros possa lhes comprar. Ter uma visão crítica acerca do mercado norte-americano não nos impede de reconhecer as incontáveis obras-primas desse mesmo mercado, repleto de filmes incríveis, de diretores visionários e geniais. Mas não se pode perder de vista que se trata de uma indústria auto-valorizável, onde o lugar da narrativa, da visão do mundo, da economia e dos valores se referendam em torno de si mesmo, deixando muito pouco espaço para o resto do mundo. O Oscar norte-americano é a celebração do seu próprio cinema.
Mas afinal, qual é o valor ou não de uma premiação do Oscar para nós, estrangeiros? Digo “estrangeiros” porque este é o lugar que ocupamos, apesar de consideramos o evento a maior premiação do cinema mundial (o que torna o sentido de estrangeiro um contrassenso).
Do ponto de vista comercial, é um excelente cartão de visitas: como vitrine de uma indústria que movimenta bilhões de dólares anualmente, fazer parte de um rol de obras premiadas pelo evento abre uma série de possibilidades, dando maior visibilidade para os filmes produzidos pelo país de origem, pelo diretor, etc., direcionando o olhar do grande público internacional para as razões pelas quais o prêmio foi concedido. Aos frutos colhidos por uma premiação dessa natureza, soma-se ainda um impulso muito bem vindo nos mercados interno e externo, fomentando novas iniciativas, repercutindo no estímulo a outros profissionais e no investimento maior no setor.
Mas a raridade de uma premiação direcionada a outro país nos remete às razões fundamentais da minha crítica. Por ser voltado para um mercado auto-centrado, cujas preocupações gravitam – ainda hoje – sobre a mesma política de disseminação da cultura norte-americana, o American way of life, a sagração de seus próprios nomes, produções, atores, profissionais, entre outros, é mais um mecanismo de valorização de si mesmo, permitindo poucas brechas para qualquer influência externa. Efetivamente, não lhes interessam outros olhares, outras identidades, outros prazeres, outras nuanças que não as que partem do seu próprio olhar etnográfico, cercado mercadologicamente de um potencial econômico muito bem estudado do qual possam usufruir, credenciando-lhes, inclusive, com a chancela de um Oscar.
O cineasta Walter Salles, quando da indicação de seu filme Central do Brasil ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar em 1998, afirmava com uma verdade muito consciente que era preciso que nossos filmes fossem vistos primeiro pelos brasileiros, que estas obras encontrassem eco prioritariamente em seu próprio mercado e depois, por consequência (e não por razão única), tomassem espaço no mercado internacional. Fiel ao que pregava, pouquíssimos dias antes do Oscar, ao invés de estar viajando pelo mundo, encabeçando na grande mídia internacional os esforços que pudessem fazer da sua obra um dos favoritos ao prêmio, o cineasta se dedicava durante uma semana inteira a um evento de formação sobre a história do cinema brasileiro no interior da Bahia, mais precisamente no Teatro Glauber Rocha, na Uesb de Vitória da Conquista.
Enfim, torçamos, então, para que nossos filmes sejam fiéis ao que somos; o resto será sempre lucro.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Em que pese olhar o Brasil mais de perto

Por Luciana Oliveira (colaboração de Marcelo Lopes)

Sérgio Buarque de Holanda, em seu célebre livro Raízes do Brasil, publicado em 1936, aborda aspectos fundamentais para entender o Brasil. A herança da colonização portuguesa e a dinâmica dos arranjos e adaptações que marcaram as transferências culturais de Portugal nos ajuda a entender certos patrimônios nacionais. Aborda principalmente como o brasileiro se tornou incapaz de separar seus interesses da esfera particular dos da esfera pública, dando origem ao famigerado “jeitinho brasileiro”. O livro também ajuda a entender como a corrupção é hoje um fenômeno enraizado na sociedade brasileira. Ao destrinchar a história ele consegue demonstrar como construímos esse patrimônio nacional. Nesse sentido, é um pouco desolador pensar que algo tão depreciativo para o país, como é a corrupção, o é por estar tão arraigado em nós.
Mas, ao retornarmos ao caso da Lei da Ficha Limpa, um fio de esperança nos anima porque a vontade social de superação parece não se encerrar num determinismo histórico. A população, ou parcelas significativas dela, não admitem a impunidade política. Num país em que somos obrigados a votar, é de dar náuseas acompanhar certos certames eleitorais. Testemunhar o retorno de algumas figuras a cargos públicos após escândalos homéricos de corrupção certamente não é o melhor caminho para o já bastante propagado Brasil do Futuro. E foi na esteira dessa indignação coletiva que milhares de brasileiros sinalizaram que exigiam mudanças no jogo. Quando mais de um milhão de pessoas se associam reivindicando mudanças algo não vai muito bem. Infelizmente, a lei sofreu alterações por parte do Congresso, sob certa “interpretação providencial” da Justiça. É bem verdade que a aplicação dela está longe do que almejávamos, mas foi um esforço válido.
A participação cada vez maior da sociedade civil organizada nos processos de decisão dos governos não é um fenômeno localizado, é uma realidade dos países democráticos. Naturalmente que essa participação foi conquistada e não cedida gentilmente pelos líderes políticos. Acredito que as pessoas estão se organizando mais em reposta ao que chamo de incompetência governamental. Parece sintomático o fato de que os estados já não conseguem mais dar conta dos anseios da população. Bem, eles foram capazes em algum momento?

Não consigo quantificar os inúmeros “elefantes brancos” espalhados pelo Brasil afora, como no exemplo do metrô de Salvador, em obras há dez anos, sem previsão de término. É claro que por trás da incompetência residem outras patologias, corrupção é uma delas. Assim, Sérgio Buarque de Holanda parece estar certo; a corrupção é mesmo um “traço nacional”. No entanto, nem todo brasileiro comunga dele. Os brasileiros têm se organizado para protestar e construir novas formas de estar no mundo. Ao que parece, o atual sistema de representação não reflete mais a nova forma de estar no mundo, o que obriga necessariamente a sociedade refletir sobre esses tempos modernos e quais outras formas de organização são mais eficazes. Se o caminho não é instituir um sistema totalmente diferente só nos resta uma reforma desses representantes.
Ao que parece, nossa capacidade tecnológica atual de ocupar espaços privados – nos quais nossos próprios representantes se resguardavam – fornece ao cidadão comum certo dom de onipresença, capaz de gerar informação, que se transforma em conhecimento e nos faz aprender. Brasília já não é mais uma ilha: hoje vive sob os olhares de milhões de câmeras particulares, é comentada pelas redes sociais, analisada pelo homem comum, indignado, propenso a manifestar-se de modo efetivo em reação a este mundo aparentemente sem jeito. Saber mais nos impele a mudar, a revirar a lógica da nossa herança ibérica e avançar. Uma crise silenciosa que não deixa de ser notada, embora não crie estardalhaços pelas ruas. É possível que adolescência brasileira esteja sendo encurtada pela velocidade da Era da Informação. Talvez não tenhamos, assim, os arroubos da puberdade, mas já demonstremos algum traço de maturidade que, em algum momento próximo, nos salve de tanta corrupção.